Pesquisa mostra que 42% das brasileiras apostam ou já apostaram e outras 12% são afetadas por alguém próximo que joga; advogado ouvido pelo Portal N10 explica reflexos sobre patrimônio, trabalho e relações familiares.
- Resumo da Notícia
- 42% das mulheres brasileiras apostam ou já apostaram em plataformas online, enquanto outras 12% que nunca jogaram relatam ser afetadas pelas apostas de familiares, amigos ou pessoas próximas.
- Entre as mulheres que apostam, 72% têm filhos; busca por renda extra, dinheiro rápido e pagamento de despesas aparecem entre as principais motivações levantadas pela pesquisa.
- O advogado Marcelo Robalinho, ouvido pelo Portal N10, alerta que quadros de ludopatia podem repercutir sobre patrimônio, despesas familiares, relações conjugais e até a vida profissional.
- Apenas 13% das mulheres que apostam ou já apostaram buscaram ajuda, apesar de o levantamento registrar problemas financeiros e relatos de ansiedade e depressão associados às apostas.
- O Ministério da Saúde reconhece o Transtorno do Jogo como problema de saúde e oferece atendimento a apostadores e familiares pela rede do SUS, inclusive por teleatendimento.
As apostas online já atingem, direta ou indiretamente, 54% das mulheres brasileiras, segundo a pesquisa
Mulheres & Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias. O percentual reúne 42% que apostam ou já apostaram e outras 12% que, mesmo sem jogar, dizem ser afetadas pelas apostas de familiares, amigos ou outras pessoas próximas. O avanço das bets dentro das famílias amplia uma discussão que vai além do dinheiro perdido nas plataformas. Quando o comportamento se torna difícil de controlar e começa a comprometer renda, patrimônio, trabalho e relações pessoais, os efeitos podem atingir pessoas que nunca fizeram uma aposta.
É nesse ponto que o problema passa a ganhar também uma dimensão jurídica. Em entrevista ao Portal N10, o advogado Marcelo Robalinho, sócio do RA Law e especialista em Direito Civil, com atuação em casos relacionados à ludopatia e ao uso de imagem em bets, afirma que as consequências podem se espalhar por diferentes áreas da vida do apostador.
“Na prática, um quadro de ludopatia pode gerar uma cadeia de consequências jurídicas que vai muito além da dívida contraída em uma plataforma. Dependendo das circunstâncias, a evolução do comportamento ludopata vai causar repercussões nas relações trabalhistas, inclusive com afastamento do trabalho, e o comprometimento do patrimônio pode provocar disputas entre cônjuges, discussões sobre administração e divisão de bens, dificuldades na manutenção das despesas familiares e até conflitos relacionados à sucessão.”
Mulheres entram nas bets também em busca de renda
A pesquisa ajuda a explicar por que o impacto financeiro pode chegar rapidamente ao orçamento doméstico. Entre as mulheres que apostam, 21,5% apontaram a busca por renda extra como principal motivação. Outras 19% disseram buscar a possibilidade de ganhar dinheiro rapidamente.
Há ainda motivações diretamente relacionadas às contas do dia a dia: 16% mencionaram despesas básicas e 11,5%, o pagamento de dívidas.
O recorte sobre maternidade aumenta a dimensão familiar do problema. Setenta e dois por cento das apostadoras têm filhos, e as mulheres com filhos aparecem apostando em proporção maior que aquelas sem filhos.
Os números fazem parte do estudo realizado pela CLARICE, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA. Na etapa quantitativa, foram entrevistados 2.008 homens e mulheres em todo o país nos dias 8 e 9 de julho de 2026, com distribuição baseada no Censo 2022 e na PNAD 2025. A margem de erro informada é de 2,2 pontos percentuais.
A etapa qualitativa ouviu 60 pessoas entre junho e agosto, principalmente mulheres de 18 a 58 anos, das classes C, D e E, residentes no Sudeste e Nordeste.
O cenário se soma a outros indicadores sobre o efeito financeiro das plataformas. Pesquisa abordada anteriormente pelo N10 apontou as bets como um dos fatores associados ao avanço da dívida doméstica no país, reforçando a preocupação com o comprometimento da renda das famílias.
Dívida de um apostador pode atingir toda a família
Os efeitos jurídicos não significam que toda dívida de uma pessoa que aposta seja automaticamente transferida ao cônjuge ou aos familiares. Responsabilidade patrimonial, regime de bens, origem da obrigação e circunstâncias de cada caso precisam ser analisados individualmente.
O alerta de Robalinho está no que acontece quando o dinheiro destinado às necessidades da família começa a ser consumido pelas apostas ou quando bens do casal entram na dinâmica de endividamento.
O levantamento mostra que 67% das mulheres entrevistadas consideram que as apostas online estão destruindo famílias, ante 59% dos homens. Outro dado indica que 23% dos brasileiros afirmam conhecer ou ter presenciado alguma situação em que as apostas contribuíram para episódios de violência dentro da família.
Também há um grupo particularmente importante para compreender o alcance do fenômeno: mulheres que não apostam, mas sofrem as consequências das escolhas financeiras de alguém próximo. São justamente os 12% que fazem o alcance total das bets chegar aos 54%.
Para Robalinho, esse grupo demonstra por que a discussão não pode se limitar à relação contratual entre apostador e plataforma.
“Quando a aposta passa a comprometer o comportamento da pessoa, o patrimônio, a renda necessária para a manutenção da família ou a relação entre seus integrantes, o Direito Trabalhista e Civil precisa olhar para esse fenômeno de maneira mais ampla. Não se trata de presumir incapacidade ou retirar a autonomia de quem aposta, mas de analisar, caso a caso, quais direitos estão sendo afetados e quais mecanismos jurídicos podem ser utilizados para preservar o patrimônio, as relações familiares e a dignidade das pessoas envolvidas.”
A análise caso a caso é especialmente importante porque a existência de transtorno relacionado ao jogo, por si só, não autoriza presumir incapacidade civil nem produz automaticamente determinada consequência patrimonial.
Apenas 13% buscaram ajuda
Outro dado do levantamento evidencia a dificuldade de interromper o problema antes de seus efeitos se agravarem. Apenas 13% das mulheres que apostam ou já apostaram procuraram algum tipo de ajuda.
A pesquisa registra ainda relatos de ansiedade e depressão entre as mulheres após o início das apostas. Esses sintomas, contudo, não devem ser tratados como uma sequência obrigatória que leve ao transtorno do jogo.
O Ministério da Saúde classifica o Transtorno do Jogo como um problema de saúde caracterizado pela dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, profissionais ou emocionais. Ansiedade, depressão, culpa e isolamento social podem estar associados à condição.
Entre os sinais de alerta estão dificuldade para reduzir ou interromper as apostas, mentiras para familiares sobre valores gastos, comprometimento do orçamento da casa, alterações de humor e prejuízos nas relações pessoais ou profissionais.
SUS atende também familiares afetados pelas apostas
Desde agosto, o SUS disponibiliza teleatendimento especializado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e também para seus familiares. O acesso pode ser iniciado pelo Meu SUS Digital, por meio de um autoteste que direciona os casos de maior risco para atendimento especializado.
Também é possível procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Quando necessário, o usuário pode ser encaminhado para acompanhamento multiprofissional em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
O governo disponibiliza ainda uma ferramenta de autoexclusão que permite bloquear simultaneamente as contas do usuário nas plataformas de apostas autorizadas, impedir novos cadastros com o CPF e interromper publicidade direcionada.
A possibilidade de buscar atendimento antes que as perdas se acumulem é um ponto central para Robalinho. Na avaliação do advogado, o crescimento do mercado exige uma abordagem que reúna saúde, relações familiares, patrimônio e consequências jurídicas, em vez de tratar a ludopatia somente como uma sucessão de dívidas individuais.
Referência: https://portaln10.com.br/bem-estar-saude/saude-mental/bets-mulheres-conflitos-familiares-ludopatia-351716/

